terça-feira, 21 de outubro de 2008

não é que eu gostasse daquele homem desconhecido
ou amasse, ou desejasse seu corpo contra o meu
era apenas uma admiração contida e ingênua

não era seu sorriso malicioso ou a risada gostosa
eram seus dedos correndo suavemente
as cordas de um violão qualquer
as palavras macias escritas às pressas.
seus interesses, seus pensamentos
avaga esperança numa humanidade perdida
a fantasia de nara correndo sua mente
seus olhos escuros,
não admirava seu sexo.
eu, pequena, platonicamente admirava seu ser.

domingo, 19 de outubro de 2008

o amor é uma faca no peito:
ou sangra até nossa morte
ou não sara, não cicatriza
eterniza a dor.

sábado, 11 de outubro de 2008

olhei nos teus olhos e vi meu reflexo
indo embora mais uma vez.
tentei ser forte, me manter em pé
mas por dentro me sentia uma janela quebrada
estilhaçada
milhões de pedaços espalhados no chão.

cometendo o mesmo erro
de ir embora
por amar demais.

eu não posso amar de um jeito diferente do que aprendi
porque as estradas por onde andei descalça me trouxeram ate aqui
com os pés calejados e as mãos trazendo um coração
que sangra.

eu não posso ser outra por mais um amor perdido
de sorrisos breves e lágrimas escondidas
de cabeça baixa e olhos para o chão.

domingo, 21 de setembro de 2008

nos teus olhos esqueci meus problemas
no teu corpo adormeci minhas dores
nos nossos beijos mais quentes, mais úmidos
suspirei os outros amores
que ficaram pra trás e já não quero lembrar

porque agora, anjo, só há nós dois no mundo
no teu quarto, teu universo
teu colchão, teu corpo nu

e eu quis ir embora, chorei baixinho
entre pílulas e gritos mudos
você põe a mão no meu peito e me pede pra ficar
e eu fico
no teu corpo ainda morno do amor que aprendemos a fazer
no nosso suor entrelaçado
nesse amor de canção de ninar.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

quando ela sorri
tem esse sorriso de menina sapeca, moleque travesso
que subiu na arvore pra roubar manga do vizinho
se lambuzar inteira e ser feliz.

quando ela sorri
eu sei que meu coração vai ficar em pedaços
que eu vou sentir falta dos nossos não-abraços
das mãos nunca dadas, de estar do lado
das vezes que eu não disse o quanto gostava.

quando ela sorri
vai doer os dias que não passamos juntas
as verdades que eu não tive coragem de falar
tudo que deixamos de fazer por medo
as possibilidades que fizemos questão de esconder

quando ela sorrir
eu vou saber que não leu essas palavras
porque prometi não te fazer chorar
e simplesmente ir

simplesmente ir.

domingo, 3 de agosto de 2008

me perdi fantasiando
nos desenhos do teu corpo
sua mão na minha nuca
tua voz nos meus ouvidos
ecoa.

eu gosto dessa dor aguda
que é sentir a tua falta
você, inexistente,
teus sutis defeitos
sabor de fruta proibida
molecagem
coisa errada.

domingo, 27 de julho de 2008

quando eu choro
eu me inundo,
me afogo
àgua e sal.

minhas lágrimas -
cristais verdes,
chuva fina
no vitral.

e o meu rosto
sempre úmido,
de tão quente
infernal.

quando eu choro
lavo a alma
te levo embora
ponho pra fora
todas as dores
os tapas
os gritos
as palavras duras

e aí eu durmo um sono quentinho
aconchegada na minha tristeza
livre de você
e de mim.

terça-feira, 22 de julho de 2008

oração

meu deus, queria eu
que teus beijos fossem meus
e que o suor nesse meu corpo
fosse metade teu

fiz uma reza, acendi uma vela
benzi tua foto com uma lágrima
que só chora quem ama demais
então pedi

que o pesadelo na madrugada
seja curado com beijos doces
acordar, te ver dormir
dizer poesia no teu ouvido
baixinho, baixinho

que não haja mais comprimidos
nem saliva gasta com palavras
as quais não quero falar

que haja só você nos meus olhos
teu cheiro na minha roupa
teu corpo no meu corpo

que haja só essa paz murmurante
os fogos artifícios da alma
e esse nervosismo doce que vai dar
toda vez que eu acordar
te ver dormir
e sonhar.

sábado, 12 de julho de 2008

carta.

meu amor,
ontem o dia amanheceu vazio,
(você reparou?)
os carros na rua iam silenciosos
as pessoas não gritavam
não haviam obras nos prédios
os camelôs estavam de luto
não me pediram esmola.

ontem o dia amanheceu cinzento,
com cara de segunda-feira.
fazia frio.
nada me apetecia.

ontem eu não tive fome,
tive uma urgência dormente na boca do estômago
aquele silêncio tomando conta do mundo
e de mim.

ontem lhe disse adeus
e olhei pra trás enquanto você partia.
então a cidade se tornou essa explosão surda
esse grito sufocado
te pedindo pra ficar.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Galáxia.

Ela era uma brisa leve quando o dia amanhecia. Seu sorriso doce, a voz de menina, não condiziam com o corpo de mulher escondido por baixo daquelas roupas largas. Sua educação rígida a obrigara a se esconder do mundo. Era concha, fruto do mar, dia de sol.

Apenas eu a via como realmente era. Olhava em seus olhos e dentro deles dava voltas ao mundo. Suas palavras tristes faladas baixinho no meu ouvido. Estou tão triste, ela dizia, tão triste que posso morrer. Acariciava-lhe os cabelos e beijava-lhe os lábios com gosto de fruta
madura, para então molhar meu rosto com suas lágrimas sempre, sempre presentes. Seus dedos gelados, aquelas pequeninas mãos frias tocando minha cintura, me preenchiam com uma agonia oceânica. Ela era um vento gelado de inverno na nuca dos desabrigados.

Deitava nua na minha cama, alva, eu contava as pintas de seu corpo uma a uma como estrelas no céu. Ela era uma constelação no meu universo pessoal. Copo de leite, flor de baunilha. As pontas dos meus dedos percorriam seus poros, arrepiavam seus pêlos ralos, até se encontrarem
com seu sexo frágil, úmido, pulsante. Estou dormente, ela dizia, tão dormente porque é bom demais. Não se mexia. Ficava ali imóvel, beatificada. Era santa, era um demônio, seus olhos doces, palavras baixas ditas no íntimo.

Suas costas eram longas avenidas que eu acreditava ter nascido para percorrer. A perfeita linha da coluna, nenhum desvio ou imperfeição. Eu encostava os lábios na sua nuca, ela sentia minha respiração e inspirava junto comigo. É pra gente ser uma só, justificava. E éramos. Molhava-lhe as costas com meus beijos mornos, via sua pele se arrepiar como os pêlos de uma gata no cio - mas sempre tão sutil em seus sinais.

Me afundava em seu corpo, seu gosto agridoce, mordia-lhe as partes. Ela segurava minha mão bem firme como a amante que diz: eu nunca vou te abandonar. Seus gritos, sussurros, gemidos, se tornavam parte de mim e com meu corpo em seu corpo ela explodia em alegria. Supernova,
corpo celeste remanescente do brilho que já não está lá. Satélite.
Fazíamos amor porque éramos amor.